domingo, 6 de fevereiro de 2011

MULHERZINHAS

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As irmãs March – Meg, Jo, Beth e Amy – são quatro garotas em plena guerra civil americana, que devem aprender a lidar com a ausência do pai, que se alistou para lutar pelo Norte, e com a recém adquirida condição econômica da família, enquanto vivem as dores de crescer.
MULHERZINHAS

Louise May Alcott
264 páginas
Editora Martin Claret, 2005.





Eu sempre quis ler Mulherzinhas (no original “Little Women”, que soa muito mais simpático de que a sua tradução), mas por algum motivo me enrolei muito tempo para fazê-lo. Shame on me. É um pouco complicado falar a respeito porque, bem, há teses acadêmicas sobre a estória das irmãs March, então tudo o que eu disser certamente já foi dito. Não me importo. Só gostaria de convencer vocês a dar uma chance a este livro e o lerem com a mente aberta e o espírito crítico afiado – afinal, o que pode parecer no início ser uma estória que em pleno século XXI passa até uma mensagem antifeminista, na verdade faz exatamente o contrário.

Primeiramente, quanto à edição da Martin Claret, preciso fazer alguns esclarecimentos: o livro publicado pela editora traz apenas a primeira parte de Mulherzinhas, ao contrário das edições em inglês, que em geral trazem o primeiro e o segundo livros juntos (e por isso possuem quase 500 páginas). Então, tenham em mente que eu não li a continuação e, portanto, a resenha abaixo não a contempla. No entanto, eu acidentalmente encontrei spoilers a respeito e, bem, não fiquei muito satisfeita. OK, vamos em frente.

Mulherzinhas nos brinda com a estória das irmãs March, cada qual com suas qualidades e defeitos, e de como elas crescem e amadurecem, tornando-se verdadeiras “pequenas mulheres” no ano em que seu pai está na Guerra da Secessão. Meg, a mais velha das irmãs, é a mais bonita de todas e a que encontra mais dificuldade em lidar com a perda de riqueza da família, que não pode mais se dar ao luxo de grandes banquetes ou vestidos caros. Jo, com seus 16 anos, preferia ter nascido um garoto, como ela mesma gosta de dizer. É uma moça com espírito livre e temperamento difícil, apaixonada pela leitura e escrita, e que encontra mais prazer nestas atividades do que em freqüentar festas. Já Beth é, nos dizeres de Jo, um “anjo”. Sempre com a saúde frágil e o comportamento quieto e introvertido, Beth nutre um amor pela música e por buscar ajudar os demais sempre, mesmo que isso lhe custe o seu bem-estar. Por fim, Amy, a caçula, é mimada e egoísta, mas tem plena consciência disto e se esforça para se tornar uma pessoa melhor. Temos ainda Laurie, o vizinho das garotas, que desenvolve uma bonita amizade com todas elas, mas especialmente com Jo.

Todas as personagens possuem profundidade e soam verdadeiramente humanas. O relacionamento entre as irmãs, longe de ser perfeito, é crível  Afinal, apesar de tudo, no fim do dia elas são família e amam verdadeiramente umas as outras. A amizade de Laurie com Jo é adorável e muito incomum para a época em que a estória se passa, sendo que os dois foram minhas personagens favoritas na estória, responsáveis por muitos de seus melhores momentos.

O livro aborda a questão sócio-econômica do ponto de vista daqueles que da riqueza foram para a classe-média, e de como é necessário tempo e esforço para se desacostumar com os luxos que se perdeu. Apresenta também questões religiosas que hoje não soam bem ao ouvido da maioria dos leitores, e eu me incluo aqui. Porém, é preciso não cometer anacronismos e situar o livro na época em que ele se passa e foi escrito: se o maior mérito de Mulherzinhas é retratar o cotidiano de moças da classe-média norte-americana no período da Guerra da Secessão, possivelmente esse retrato não estaria completo se a autora suprimisse o elemento religioso.

E se a estória das irmãs March eventualmente toca na questão do casamento e da necessidade das moças arrumarem um “bom partido” na época, o foco da estória não é esse e ao romance a autora delega um papel bastante diminuto, felizmente. Seria muito fácil para Louise, como produto do século XIX, nos trazer mensagens como a de que o casamento resolve tudo e é a resposta universal para os males das mulheres. Ou, ainda, que estas devem se resignar a um papel de subserviência e a uma vida doméstica. 

Você entendeu do que eu estou falando.

Não é o que acontece. Ao invés disso, temos Jo como à heroína de grandes sonhos e aspirações artísticas, que “gostaria de ser um garoto” e mantém uma amizade com Laurie bastante incomum para a época. Isso passa uma mensagem muito positiva e muito forte para as garotas, e acho que as críticas de que Mulherzinhas seria um livro cheio de moralismo e que agride a figura da mulher são absolutamente furadas.

Mulherzinhas não é um livro para ser lido sem maiores reflexões, embora a primeira vista a estória possa parecer simples e rasa. A narrativa é lenta em alguns momentos, mas sendo o retrato da época que é, não podemos pedir por ação nonstop. No mais, é literatura da mais alta estirpe, altamente recomendada se você estiver disposto a ver além do óbvio.

Uma breve nota é que o segundo livro se chama Good Wives (publicado no Brasil como "Mulherzinhas Crescem”) e há ainda muitos outros sobre a família March (como “A rapaziada de Jo”, por exemplo). Infelizmente, eles foram publicados no Brasil há muito tempo e para encontrá-los é necessário recorrer a sebos, pois as edições já estão esgotadas. 

Por fim, gostaria de falar mais um pouco sobre o spoiler das sequências que me deixou verdadeiramente triste, então você pode optar por prosseguir por sua conta e risco ou pular para o "quadro de avaliação" abaixo. Optou por prosseguir? Então tá. Bem, Laurie e Jo possuem um relacionamento muito interessante, de verdadeira amizade e parceria. Ao ler o primeiro livro, embora a autora tenha sido muito discreta podemos encontrar evidências de que Laurie gosta de Jo muito mais do que como uma amiga. Mas não é que Laurie termina casando-se com Amy, após ser rejeitado por Jo, como dá para ver nessa cena do filme baseado nos livros? Entendo todos os argumentos de Jo para rejeitar Laurie (e simpatizo profundamente com eles), mas confesso que fiquei um pouco triste por eles não terminarem juntos. Não sou uma grande fã de finais felizes nem nada, e há muito tempo não torcia verdadeiramente para que determinado casal de personagens ficasse junto, mas os dois me causaram tamanha empatia que eu não posso evitar.


Enfim, já decidi que tratarei deste assunto como fiz com "Pocahontas II". Vou fingir que a sequência nunca ocorreu e dar um destino diferente na minha cabeça para as personagens que eu tanto gostei. Mas sim, a vida é mais complicada do que isso, e eu entendo por que Louise escolheu seguir com sua estória da maneira como seguiu.

Narrativa: 4/5
Desenvolvimento das personagens: 5/5
Fator X: Uma mensagem positiva para as garotas, sobre crescer e fazer o que se ama! 
Avaliação Geral: 5/5 


12 comentários:

danamartins disse...

a capa é uma tristeza, né? e o nome pior ainda. eu nunca pensaria em parar pra ler se não tivesse lido aqui, mas do jeito que você falou... acho interessante e que vale a pena. :B

Nathalia disse...

Ah, essa capa... essa capa! Martin Claret sempre nos brinda com fantasias psicodélicas, é um... charme. (não)

Enfim, err, é, também tenho essa edição, li há um tempinho mas lembro que gostei da Jo e do Laurie. (que apesar de no filme ser o Chstian Bale, por motivos misteriosos na minha cabeça aparece como o Caio Blat. É. Caio Blat. NÃO SEI O MOTIVO.)

(E só depois de muitosmuitos séculos, fui saber que a história não estava toda ali. Oh, querida editora MC...!)

Nathalia disse...

... ok, comentando de novo porque esqueci de falar que, SIM, POCAHONTAS 2 NUNCA ACONTECEU, esse é um fato, um fato!!

(e, é, Laurie e Jo na minha cabeça é um casal tremendamente fofo. Meh. Ignorando os outro livros agora!)

Caroline Juliane Bonifácio disse...

Adorei a resenha! Achei que a história do livro me parece ser realmente muito boa! Concordo com o comentario acima aii.. essa capa é uma tristeza rsrsrs.. Mas adorei!
Beijos
Carol {SobreUmLivro}

book disse...

Lééééka! Awwn, simpatizei por esse livro ai! *-* Apesar do foco principal não ser romance... A sinopse realmente me deixou curiosa! E, claro, sua resenha também ajudou né! :P
E eu li o spoiler :X confesso que mesmo sem ler o livro não gostei de saber aquilo ahahahha O.o
E tu não gostou de Pocahontas II?? Achei tão fofinho! XD Mas acho que ela deveria ter ficado com o John Smith haha :D
Beijocas guria!

Sora Seishin disse...

Oi Leka!
Eu não li esse livro, só vi o filme (e falei há pouco tempo dele no meu blog ^^).
Não sabia que a história era dividida em dois livros!! Então o filme é um "condensado" dos dois?
Também torci para a Jo ficar com o Laurie, mas acho que não era pra ser mesmo.
Beijos

vanessa disse...

Adorei a resenha, ta muito boa. A capa é triste mesmo, como todo mundo ta falando nos comentários UAHUSHA parece ser bacana, mas acho que não tem muito meu estilo, sei lá. Enfim, valeu saber sobre o livro (:
Beijos, Vanessa
This Adorable Thing.

Luana Farias disse...

Não sei se gostaria do livro não mas tenho q conferir.

Bjs

Victor disse...

Uma ótima opcao para sair da rotina de livros best sellers, YA ou contemporaneos - ou seja lá o que você lê - ( Propaganda da onda huahua ) O livro parece ser um ótimo romance de época - que para manter o machismo aparente, eu vou dizer que nao gosto e nao gostei muito de A duquesa ou estou há tempos querendo ler e reler Orgulho e Preconceito - mas, como muitos que estou conhecendo ao pouco, vao para um lugar na lista após a mestra Austen - segue depois de Ovelha Negra. Acho interessantíssimo nessas autoras mais antigas o modo como elas exploravam a sexualidade da mulher - naquela época falar disso era quase como fazer sexo na rua, um absurdo quase tao grande como vestir roupas que nao passavam do joelho =O huahua - e fazer as mesmas terem um final feliz ( ou ao menos uma trajetória mais livre - driblando os costumes da época.

Beijos,

Victor

PS.: Falando em romances de época... o filme de Jane Eyre chega esse ano. Já me adiantei e li a versao em inglês de Comic. Deu raiva porque ela é burra, mas a história é fantástica =)

Victor disse...

Ah, e quanto ao Pocahontas 2, é só imaginar o #3, no qual o navegador locao lá chifra ela com uma india ( vamos ser nacionais e dizer que foi a Iracema durante uma expedicao ) e ela voltou pros bracos do John Smith. Coitado, ficou segurando vela o 2 inteiro =/ Mas no 3 ela vira ninfomaníaca e eles fazem tudo que nao deu tempo nos dois filmes anteriores huahuahua HAPPY END !!! Típico filme de Disney, hein ? huahua

Mariana Paixão disse...

Pelo nome e pela capa eu nunca leria esse livro... Posso dizer até que pela editora eu também nunca leria...!

Mas gostei muito dos pontos que você falou, pareceu uma leitura bem interessante.

Apaixonados disse...

Ah, ótima resenha. Fiquei curiosa com a história e concordo com que a capa é uma tristeza. Poxa, agradeço novamente sua dica. Ado0rei seu blog, estou seguindo e estarei sempre por aqui.
PS: Gostaria de propor parceria mas não tenho certeza se é por comentário, de qualquer forma colocarei o banner no Clave de Lua independente da resposta já que é um blog totalmente recomendado sim.

Beijos
Thai

PS: Está saindo mesmo o filme da Jane Eyre??